sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sobrevivente incólume

Por Rui Zilnet


Eis aqui um exemplo de como a especulação imobiliária e os grandes empreendimentos prevalecem sobre a qualidade de vida da população.


Flamboyant vermelho, na Rua Marcondes Salgado, em Bauru/SP. (Foto: Rui Zilnet)

Na Rua Marcondes Salgado, próximo à esquina da Avenida Nações Unidas, na cidade de Bauru (SP), em frente recém inaugurado Shopping Nações, encontramos uma frondosa árvore da família das 'Fabaceae' - conhecida popularmente por Flamboyant, Acácia rubra, Flor do paraíso, Pau rosa, entre outros nomes - sobrevivente incólume à devastação promovida em função da duplicação da via.

Como mostra a imagem obtida no Google Maps (abaixo), recentemente haviam algumas espécies de árvores frondosas no local, que proporcionavam sombra a quem circulava por ali. Observe a quantidade de veículos protegidos sob as copas daquelas árvores.

Rua Marcondes Salgado, em Bauru, antes da duplicação da via, no segundo semestre de 2012

Não é possível entender o porque da supressão de árvores como estas. Como os responsáveis pela preservação do meio ambiente permitem a consumação de tal ação, que só trás benefícios aos especuladores e grandes empreendedores? Onde está a preocupação dos agentes públicos com a qualidade de vida da população?

Clique sobre as imagens para melhor visualizá-las.


Observação: A imagem superior foi registrada hoje (25 de janeiro). A imagem do Google Maps é do último trimestre de 2012.

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Moradores da favela mais antiga do Brasil pedem socorro

Por Rui Zilnet


Imagem registrada durante as obras de implantação do teleférico
no Morro da Providência (Foto: Rui Zilnet)
Em carta aberta à população do Rio de Janeiro, moradores do Morro da Providência denunciam as arbitrariedades consumadas para realização das obras de revitalização da região portuária, que visam o embelezamento da cidade para a Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

O Morro da Providência, onde está localizada a primeira favela do Rio de Janeiro, considerada pelos historiadores a mais antiga do Brasil, com mais de 110 anos de ocupação, remanescente da cultura afro-descendente, berço das primeiras escolas de samba e dos primeiros grupos de pagode, pede socorro.

Os moradores alegam, que as obras, pensadas pelos grandes empresários do setor imobiliário e do turismo, vão contra os interesses da população, destruindo a história e memória local. Responsabilizam a Prefeitura do Rio por todos os transtornos gerados e, ainda, denunciam que tudo está sendo implementado na vertical, sem participação social da comunidade e sem estudos técnicos que comprovem a necessidade de intervenções como o teleférico e plano inclinado.


Íntegra da carta:

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO DO RIO DE JANEIRO

Você sabia que a favela mais antiga do Brasil está sendo destruída?

Desde 2009 a região Portuária do Rio de Janeiro transformou-se num grande canteiro de obras das empreiteiras OAS, Carioca e Odebrecht. Juntas essas empresas invadiram a área com três projetos: 1º é o que eles chamam de “PORTO MARAVILHA”, um projeto de “revitalização” da Zona Portuária que está sendo coordenado pela CDURP – Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região Portuária e financiado pelo dinheiro público (FGTS) e pela venda da terra pública existente na região (70% dos terrenos são públicos); 2° é o Programa de Urbanização MORAR CARIOCA do Morro da Providência que está subordinado a Secretaria Municipal de Habitação e orçado no valor de 119 milhões e o 3° é o Projeto PORTO OLÍMPICO que é parte das grandes intervenções urbanas de embelezamento da cidade para os Jogos Olímpicos de 2016.

Contudo, muito antes desses projetos já existia na área portuária o MORRO DA PROVIDÊNCIA. Segundo historiadores essa é a favela mais antiga do Brasil, com mais de 110 anos de ocupação, patrimônio do povo brasileiro, remanescente da cultuta afro-descendente e berço das primeiras escola de samba como a “Vizinha Faladeira” e dos primeiros grupos de pagode como o “Conjunto Nosso Samba”!

ATUALMENTE TODA NOSSA HISTÓRIA ESTÁ EM PERIGO!

Obras e mais obras pensadas pelo grandes empresários do setor imobiliário e do turismo estão destruindo a nossa memória, nossa história e toda nossa vida! A grande imprensa não divulga que as construções do Teleférico e do Plano inclinado do Morro da Providência estão sendo implementados de cima para baixo, sem nenhum tipo de participação social da comunidade e sem nenhum estudo técnico que comprove a necessidade da construção desses equipamentos de transporte! Mas será que eles realmente sevem para isso? Já sabemos que o teleférico do Complexo do Alemão está subutilizado e que não atende as necessidades dos moradores!!!

A mídia também não informa que o próprio projeto de Urbanização Morar Carioca prevê a remoção de 832 casas da Providência! Estas já foram criminosamente pichadas pela Secretaria Municipal de Habitação e, infelizmente, algumas delas já foram removidas! Sob o argumento de que 317 destas casas estão no caminho das obras e que 515 estão em área de risco (já temos um contra-laudo provando que na Providência a grande maioria das casas NÃO está em área de risco) a Prefeitura está aterrorizando moradores e oferecendo como contrapartida um aluguel social de 400 reais que não dá para pagar nenhuma casa digna para morarmos, ou uma compra assistida que também é uma roubada, ou ainda uma indenização fora da realidade do mercado. (Veja matérias do Jornal O Povo)

Segundo a “Planta Geral de Urbanização do Projeto Morar Carioca” o número de unidades habitacionais planejadas para serem construídas ao longo de dois anos é menor do que o número de remoções! São apenas 639 unidades habitacionais previstas! 58 unidades na Ladeira do Farias n° 91; 20 na Ladeira do Barroso; 4 no Centro Histórico; 131 na rua Nabuco de Freitas, 77 na rua Cardoso Marinho n°68; 349 na Aldomaro Costa n°83. Faltariam ainda 193 casas se considerarmos que em cada casa vive só uma família, no entanto, na comunidade a maioria das casas possui mais de uma família morando; famílias que construíram suas casas ao longo de muitos anos e com muito trabalho e que não querem sair dali!

Para a construção do Teleférico roubaram a nossa única área de lazer - A Praça Américo Brum! Para a construção de uma rua que vai ligar o Teleférico à Vila Portuária várias famílias da área da “Toca” já foram desapropriadas com valores baixíssimos! Para a construção de um centro esportivo, que também não nos consultaram sobre a necessidade, a área conhecida como AP na Ladeira do Farias foi demolida e desalojou cerca de 60 famílias de um dia para o outro. Nesse caso a Prefeitura demoliu casas ainda com pessoas dentro!!! Uma moradora ainda mora neste imóvel e vem resistindo a todo tipo de pressão, obrigando a prefeitura a suspender os trabalhos de um complexo esportivo. Ela mora no AP há 35 anos e tem direito de posse daquele imóvel! O nosso Direito à Moradia não está sendo respeitado!

Além disso, temos vivido de domingo à domingo em meio aos entulhos, buracos, lixos, atormentados pelo barulho das máquinas da obra que não param nem de noite e impedidos de transitar pela Ladeira do Barroso que é uma das únicas ruas que liga a Providência à Central do Brasil. Sentimos o impacto ambiental na pele e mesmo assim a obra foi liberada sem nenhum Estudo de Impacto Ambiental prévio! O impacto de vizinhança também não é considerado! Há pessoas que já saíram do Morro e que estão sem escola para os filhos, longe de parentes e amigos! O valor dos aluguéis já subiu! Daqui a pouco não conseguiremos mais pagar!

Gostaríamos que o povo da cidade do Rio de Janeiro soubesse que os moradores da Providência não são invasores nem contra a urbanização! Somos mulheres e homens que moramos aqui porque temos uma história aqui e precisamos sobreviver! A maioria dos moradores está aqui há mais de 20 anos, toda nossa vida é aqui, a dos nossos filhos, dos nossos netos! Tudo é perto, escola, hospitais, trabalho, mercado, lazer etc. Acreditamos a Prefeitura é a principal responsável por todo esse transtorno e estamos unidos para garantir que nenhuma casa mais seja derrubada e que as melhorias nos beneficiem!
Para finalizar, o legado social da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 que queremos é permanência na Providência e a garantia de que também poderemos viver nesta cidade maravilhosa! Pedimos à população carioca que nos ajude a divulgar o que está acontecendo com a nossa cidade!

Comissão de Moradores da Providência e Fórum Comunitário do Porto



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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Dois pesos, duas medidas


Mídia conservadora não mostra desvios de gestores tucanos

Por Rui Zilnet

A partir da posse do presidente Lula, em 2003, o Brasil foi contaminado por uma onda de combate à corrupção como nunca visto. O assunto passou a ser encarado como grande novidade, como acontece até os dias atuais. Parece que no período dos governantes que antecederam Lula o patrimônio público era tratado com respeito pelos gestores públicos e a tal corrupção não existia.

E, hoje, quando se fala em corrupção, o alvo é unicamente a esquerda, principalmente o PT, obviamente, o maior e mais influente partido do país, não só por ser o partido do governo, mas por concentrar o eleitorado da massa produtiva, que sempre foi ignorada pelos grupos que governaram o Brasil desde o início da República até a era Lula.

Para a grande mídia, respeitada cegamente pela elite brasileira e, infelizmente, por grande parcela da população pobre alienada, que se mantém ao cabresto eleitoreiro dos partidos da direita, a atual gestão política brasileira não é ideal porque contraria veementemente seus interesses econômicos.

A mídia conservadora jamais noticia fatos de corrupção e outras mazelas que envolvam os partidos de oposição ao atual governo, simplesmente porque subestima a inteligência da população antenada, que busca informação por outros meios não comprometidos com privilégios da elite brasileira.

Assim, nenhum veículo da “grande mídia” noticiou, nas duas últimas semanas do ano passado, que no dia 21 de dezembro, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal (MPF) e a Controladoria Geral da União (CGU) deflagraram uma operação para desarticular um esquema de desvio de recursos federais destinados a programas assistenciais e ações da prefeitura de Leopoldo de Bulhões (GO), a 54 quilômetros de Goiânia, capital do estado. Mas, esta mesma mídia, não cessa fogo contra Lula, Dilma e seus aliados.

Em Leopoldo Bulhões, uma cidade com 7875 habitantes (Ibge/2010), nos últimos dois anos houve um desvio de cerca de R$ 1,9 milhão, que deveriam ter sido aplicados nas áreas de saúde, educação e desenvolvimento social. Com esta verba deveria ter sido construída pelo menos uma creche e adquirido um veículo para transporte de estudantes.

Na operação, denominada “Fundo Falso”, foram cumpridos cinco mandatos de busca e apreensão. Os policiais federais fizeram buscas na sede da prefeitura de Leopoldo Bulhões, na casa do prefeito, Raimundo Nonato Rodrigues (PSDB), e em um escritório de contabilidade.

Durante a auditoria da CGU, foram encontrados extratos bancários adulterados relativos à prestação de contas e irregularidades na execução do convênio para a construção da creche e na aquisição do veículo escolar.

Moradores do município denunciam irregularidades e problemas, como o atraso de mais de cinco meses no pagamento dos salários de servidores e professores, escolas fechadas, e a precariedade do atendimento nos postos de saúde.

Então, como em tantos outros municípios brasileiros, onde a má gestão e a corrupção estão arraigadas, o governo do município de Leopoldo Bulhões é do PSDB.

Para a mídia conservadora, que somente visa seus próprios interesses e de seus comparsas, serão sempre dois pesos e duas medidas.

Fonte: Agência Brasil

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Os fatos da história se repetem


“Os paralelos entre Vargas e Lula – 2”


Por Luiz Nassif, em Luiz Nassif On Line

Os tempos são diferentes, o nível de desenvolvimento brasileiro é outro.
Mas há pontos em comum entre a luta política do período Vargas-Jango e do período Lula-Dilma.

Em comum, o fato da oposição ter escassas possibilidades de tomar o poder pelo voto. Assim, o protagonismo é assumido por grupos que levam a luta política para outros campos, extra-eleitorais.

No caso de Vargas, essa aglutinação da oposição se deu no segundo governo, com a imprensa livre das amarras da censura do Estado Novo. No caso de Lula, na aliança mídia-PSDB que se forma no pós-mensalão.

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Havia duas maneiras de enfrentar o clima pre-conspiratório. A primeira, compondo alianças, diluindo pressões, apostando na normalização econômica e política, até ser aceita pelo status quo; a segunda, partindo para o confronto.

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Dilma Rousseff claramente está apostando todas suas fichas no primeiro caminho.

Do período pré-posse à queda, Jango balançou entre esses dois movimentos: o da conciliação, típico da sua personalidade, e da radicalização, conduzido pelo cunhado Leonel Brizola. Sua indefinição derrotou-o.

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Quando Jânio renunciou, dos obstáculos apareceram para a posse de Jango.
O primeiro, uma enorme dívida junto ao Banco do Brasil; o segundo, a resistência de setores empresariais e militares, que articulavam desde a campanha presidencial que elegeu Vargas.

A dívida junto ao BB foi resolvida de forma habilidosa e até hoje não revelada, envolvendo troca de chumbos entre bancos privados e o BB.

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Já a resistência dos conspiradores foi enfrentada com uma operação heroica, comandada a partir de Porto Alegre por Leonel Brizola.

No Rio, ocorriam as negociações. Fechou-se um acordo pelo qual Jango assumiria se dentro de um regime parlamentarista e tendo na Fazenda um Ministro responsável, que impedisse loucuras populistas.

A escolha recaiu sobre o banqueiro Walther Moreira Salles.
Os dois episódios mostram que Jango estava totalmente despreparado quando o cavalo da presidência passou encilhado por ele.

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Moreira Salles renunciou, depois que Jango tentou empurrar goela abaixo um plano econômico preparado por seu assessor Cibilis da Rocha Viana. Mais tarde, Jango reconquistou o presidencialismo, atropelando o acordo político inicial. E indiciou Carvalho Pinto para Ministro da Fazenda tentando recuperar a confiança. E foi oscilando assim até o fim.

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A Revolução Cubana foi o fator determinante para os problemas da época.
Reforçou, na oposição, o discurso da subversão, contra um presidente que, em toda sua vida, jamais foi adepto de soluções de força. E, no PTB, a ideia de resistir ao golpe através da mobilização popular.
Em nenhum momento Jango cuidou de preparar-se, junto às demais forças de Estado, como as Forças Armadas. Permitiu manifestações de que ajudaram a reforçar o discurso dos conspiradores, de quebra da hierarquia.

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No caso de Dilma, sua estratégia é baixar a fervura da água.
Faz isso com uma política econômica desenvolvimentista mas cautelosa, na qual o combate à inflação ainda é prioritário; com declarações, até à exaustão, de fé nas instituições, inclusive na mídia.

Se é a estratégia correta, o tempo dirá. Se a economia for bem, a estratégia será eficaz.

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Os desafios da presidenta Dilma


"Brasilia e a engrenagem"

Por Delfim Neto, em Carta Capital

Antes de lembrar os inegáveis sucessos desses dois anos de governo da presidenta Dilma Rousseff na administração dos problemas da economia, decidi entrar direto na discussão do que me parece o maior desafio que ela terá de enfrentar (e vencer) nos dois anos que começam hoje, janeiro de 2013. O Brasil precisa aumentar fortemente o ritmo dos investimentos para voltar a crescer 5% ao ano, o que vai acontecer quando funcionar a engrenagem fundamental que move todo o sistema das economias de mercado, a confiança que deve existir entre o setor privado e o Estado.

Os investimentos retornarão quando se reforçar nos empreendedores a certeza de que serão tratados com justiça, com regras de jogo amigáveis aos mercados, claras e definitivas e com a garantia de que haverá respeito rigoroso à estabilidade dos contratos. De um lado, é vital que o setor privado entenda as dramáticas dificuldades que cercam a administração do Estado, aceitando o fato de que o poder incumbente é o regulador dos mercados para aumentar a competição num ambiente favorável aos negócios. Por sua vez, a administração do Estado deve manobrar com inteligência e paciência e obter a cooperação do setor privado para a realização de seus objetivos.

Nesses dois primeiros anos, desde a posse em janeiro de 2011, a presidenta Dilma Rousseff enfrentou e venceu outros graves desafios que pareciam insuperáveis, o maior deles uma elevadíssima taxa de juros que se eternizava. Administrado com extrema competência, o Banco Central comandou um sofisticado e cauteloso processo de redução dos juros, sustentado na mais alta instância política pela atenção direta da presidenta Dilma, até trazer o juro básico ao nível mais civilizado de 7,25%, em 12 meses. Isso depois de 15 anos de prática da mais alta taxa de juros do mundo, que alimentou uma sobrevalorização cambial, causando enormes prejuízos à manufatura nacional.

É de justiça reconhecer que, no exercício da política monetária, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, mostrou-se muito mais antenado com a realidade brasileira e com a situação da economia mundial do que a maioria dos nossos “especialistas” do mercado financeiro e das próprias autoridades monetárias dos países ditos “centrais”. A redução da taxa de juros real foi um passo muito importante que vai ter consequências sérias no futuro. Não é sem motivo que nossos mais ativos e ousados fundos de investimento estão buscando, no exterior, alternativas para a redução dos rendimentos que obtinham no Brasil.

De dezembro de 2011 a novembro de 2012, a Bolsa mexicana aumentou 15% em moeda local e 23% em dólares; a colombiana, 14% e 22%, respectivamente, enquanto a Bovespa aumentou 1,6% em reais e perdeu 10% em dólares. Isso explica “o porquê” de o Brasil ter deixado de ser o queridinho que era do mercado financeiro, quando as aplicações rendiam, aqui, 30% ao ano, em dólares, graças à soma do crescimento da Bovespa e da valorização do câmbio… Muitos ainda choram o fato de o Brasil não ser mais o pernil com farofa e ameixa oferecido nas festas neste fim de 2012 na City londrina ou em Wall Street.

O investidor nos setores de produção de bens não financeiros dá menos importância a esse fato, porque olha o mercado com “olhos mais longos” e vê um país com 200 milhões de habitantes, com renda per capita de 12 mil dólares, que, entre 2006 e 2011, cresceu à taxa anual de 3,2%, com uma inflação média de 5%, com uma sólida política fiscal (gráfico) e que recentemente foi classificado, pela Boston Consulting Group (BCG), entre 150 países, como o que melhor utilizou o crescimento econômico dos últimos seis anos para elevar o padrão de vida e o bem-estar da população (em meio à crise que continua massacrando boa parte do mundo). O resultado da consulta é explicado pela inserção no mercado de uma ampla classe média, que vai diversificar seu consumo e exigir cada vez mais qualidade dos bens e serviços no futuro. E também explica a “sustentabilidade” em alto nível do prestígio internacional (e nacional) do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff (gráfico: Inclusão Social das Classes C e D).

A presidenta frequenta, ainda, nestes momentos finais do Ano-Velho e início do Ano-Novo, a pedreira da questão energética e não é só no caso da renovação das concessões das usinas hidrelétricas, mas também da partição da produção no pré-sal entre os entes da Federação. O encaminhamento das discussões para as Casas do Congresso Nacional é a solução correta. Não houve quebra de contrato no caso da energia nem de outros setores. Não é justo calcular a indenização das usinas pelo valor residual contábil, como pretendem alguns estados, porque ele incorpora todos os tropeços na construção de cada uma delas. Não foi razoável, porém, desrespeitar as relações impostas pela Federação, depois de ter rejeitado os pedidos de renovação que os estados fizeram no passado.

A presidenta Dilma agiu bem ao buscar solução para o sério problema do excessivo custo da energia no Brasil, uma questão complicada que está procurando corrigir, talvez, de uma maneira um pouco mais dura do que seria necessário, mas que precisa ser feita. Espera-se, finalmente, a convocação no segundo semestre de 2013 dos prometidos leilões.
As medidas tomadas no exercício das políticas monetária, fiscal e cambial estão na direção correta. Pode-se discutir a forma, mas elas estão corrigindo, ou tentando corrigir, alguns dos defeitos fundamentais da economia brasileira. Isso contempla desde a bem-sucedida política de queda da taxa de juros real, a recuperação da taxa de câmbio proporcionada pelo controle do movimento de capitais, as desonerações das folhas salariais, e o excepcional esforço para aumentar a inclusão social.

O governo, quando facilita o acesso ao crédito, quando estimula sua expansão, está promovendo o crescimento do consumo, deixando claro que esse modelo ainda tem muito que contribuir para a inclusão social. O que falta agora é um poderoso estímulo ao investimento privado e o restabelecimento de uma relação de confiança entre o governo e o setor privado.

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domingo, 6 de janeiro de 2013

Operação 2014


“Dilma e o destino”
Por Mino Carta*, em Carta Capital
Há situações que me causam alguma perplexidade. Durante o governo Lula o empresariado queixava-se dos juros escorchantes, com exceção dos banqueiros, está claro. De sua alegria cuidava o presidente do BC, Henrique Meirelles. Em compensação, o vice-presidente da República, o inesquecível e digníssimo José Alencar, defendia com ardor a demanda dos seus pares.
Agora o governo Dilma abaixa os juros, e todos se queixam, em perfeito uníssono. Busco uma explicação, embora me tente recorrer a um dos grandes escritores do absurdo, movido pela convicção de que somente eles seriam capazes de explicar o Brasil. Este é um país que consegue viver contradições abissais, a começar pelo seguinte fato: atravessamos no mesmo instante épocas diferentes. A modernidade tecnológica e a Idade Média política e social.
No caso dos juros, os lances mais recentes do governo Dilma revelaram outro fato bastante significativo: muitos brasileiros que se dizem empresários são, de verdade, apenas e tão somente especuladores. Contaminados pelo vírus do neoliberalismo, acertaram sua irredutível preferência pela renda no confronto com a produção, e a baixa dos juros os atinge na parte mais sensível do corpo humano, ou seja, o bolso, como disse há muito tempo o professor Delfim Netto.
Seria preciso assumir o autêntico papel do empresário e, em vez de acompanhar os movimentos das bolsas e das oligarquias financeiras, trabalhar para produzir e enfrentar a concorrência e riscos variados como, creio eu, vaticinava Adam Smith. Os próprios banqueiros perdem benesses e têm de arregaçar as mangas para voltar às tarefas da Banca di San Giorgio.
O governo Dilma dá um passo adiante em relação àquele que o precedeu. Mexe com os interesses do poder real, conforme a opinião de analistas atilados. Ousa o que Lula não ousou. E o balanço da primeira metade do seu mandato há de registrar esse avanço em primeiro lugar.
É justo perguntar aos nossos botões por que um país tão favorecido pela natureza não atingiu o grau de desenvolvimento que lhe compete. E a resposta é inescapável: a casa-grande ficou de pé e conseguiu, sem maiores esforços, a bem da verdade, manter a Nação atada ao seu próprio tempo de prepotência. “Eles querem um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo”, dizia Raymundo Faoro.
Poder absoluto de um lado, submissão do outro. Getúlio Vargas, eleito democraticamente em 1950, tentou enfrentar a casa-grande e morreu suicidado. O novo desafio demorou 48 anos e começou com a eleição de Lula, início de um capítulo inédito da história, este por ora a mostrar-se duradouro. Como se deu com Getúlio, mas em circunstâncias diferentes, o povo identificou-se com seu líder. No entanto, ao contrário de Getúlio, Lula é seu povo, e chegou depois de uma ditadura de 21 anos imposta pela casa-grande e de uma fase da chamada “redemocratização”, na prática voltada à manutenção do poder real e dos seus privilégios medievais.
Dilma, nesses seus últimos dois anos de mandato, deu continuidade à obra do antecessor sem deixar de conferir marca pessoal ao desempenho. De saída, livrou-se de ministros incômodos, como o exorbitante “operador” Antonio Palocci, ou Nelson Jobim, atucanado militarista. Prosseguiu pelos caminhos traçados por Lula na política social e exterior e foi recebida mundo afora como digna sucessora do “cara”. Lança, enfim, as bases de uma política econômica afinada com os objetivos de um governo social-democrático habilitado à contemporaneidade do mundo.
Janus bifronte mostra o cenho franzido na face que encara o passado, enxerga um 2012 difícil, de desenvolvimento econômico medíocre, abalado por uma crise mundial muito antes que brasileira. Não está desanuviado o rosto que olha para o futuro. O ministro Mantega promete em 2013 um crescimento de 4%, ou pouco mais, índice excelente nas circunstâncias. Não me arrisco a analisar a promessa. As dificuldades para Dilma se espraiam bem além da situação econômica, a despeito das influências que esta exercerá em outros quadrantes.
A “Operação 2014”, desencadeada pela mídia contra Lula e contra o governo não arrefecerá certamente na perspectiva do pleito do ano próximo. De certa maneira, a campanha eleitoral já partiu e definiu seus temas recorrentes. Sim, os tempos mudaram e os porta-vozes do poder real não alcançam a maioria da Nação. Sobram, porém, os problemas criados dentro do PT, da base governista e até do governo. Semeados inclusive pelo Supremo Tribunal Federal, lunaticamente inclinado a subverter as regras basilares da democracia e a agredir a Constituição. Será que o ministro da Justiça tem mesmo de resignar-se diante de tanto descalabro?
Assustam, sejamos claros, um STF e um procurador-geral da República claramente engajados na Operação 2014. Para seu próprio bem, cabe ao governo uma reação à altura, também em outra frente, para reestruturar o Partido dos Trabalhadores, hoje dividido, depauperado e em estado de confusão. Neste campo, a intervenção do fundador é indispensável. Lula é o líder em condições de conduzir o partido no retorno ao passado, para reencontrar aquela agremiação que o sustentou por três eleições e enfim o levou à Presidência em 2002.
Quanto à base governista, os problemas parecem insolúveis. Governar exige alianças de ocasião e as melhores intenções acabam por lastrear o caminho do inferno. Há parceiros confiáveis e outros que veem na carreira política a escada da vantagem pessoal. Há quem sugira uma ação para buscar o favor do empresariado. Talvez aqui a tarefa seja menos complicada do que a tentativa de formular planos comuns com, digamos, o PMDB do vice-presidente Michel Temer e do senador José Sarney, ou com o PDT de Miro Teixeira e outros do mesmo jaez.
Permito-me, de todo modo, como se daria a aproximação ao empresariado descontente com a política econômica. Por meio de um seminário sobre o capitalismo de Adam Smith e John Maynard Keynes? Mesmo assim, tentativas menos ingênuas poderiam ser experimentadas, com algum êxito, quem sabe.
Pego-me a olhar para os colegas da redação, dobrados sobre seus computadores, intérpretes da modernidade, enquanto eu batuco na minha -Olivetti Linea 88. Sou francamente arcaico, mas temo que o computador me engula como fez e faz com tantos outros. Não escapo à sina, também eu mereço Ionesco, ou Beckett. Certo é, sem qualquer parentesco com o absurdo, que às vezes o bonde da história passa pela porta de casa. Não da minha, é óbvio. Falo de Dilma Rousseff. Sinto nela a crença, a energia, a determinação, a capacidade e o porte dos escolhidos do destino.

* Mino Carta é diretor de redação da revista Carta Capital.
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ministério Público mineiro nega acusações contra Carta Capital


Por Rui Zilnet

Após algum tempo dedicado exclusivamente à fotografia, venho abrir o ano relatando o episódio sobre artigo publicado no portal Comunique-se, envolvendo o Ministério Público de Minas Gerais e a Revista Carta Capital.

Na edição da última quarta-feira (2), o portal Comunique-se divulgou que o Ministério Público havia acusado a Revista Carta Capital de ter forjado documento para produzir matérias sobre o mensalão mineiro, também conhecido como “mensalão tucano”, “valerioduto tucano” e “tucanoduto”, na época da tentativa de reeleição do então governador mineiro, Eduardo Azeredo (PSDB), em 1998.

Contudo, o Ministério Público de Minas Gerais, em nota enviada ao redator-chefe da revista, desmente as afirmações constantes na matéria do Comunique-se.

Íntegra da nota do MP de Minas Gerais:


Prezado senhor Sergio Lirio, redator-chefe da revista Carta Capital,

Sobre matéria recentemente publicada pelo portal Comunique-se, o Ministério Público de Minas Gerais afirma que em nenhum momento acusou a revista Carta Capital de forjar documentos.

O objetivo da nota enviada por meio do ofício n.º 108/2012-SCI-PGJ para a revista Carta Capital foi alertar os responsáveis pela publicação sobre a existência de um documento falsificado, no qual foi incluída, de forma inidônea, a assinatura de um dos membros desta Instituição.

É quanto a essa falsificação que foi solicitada a instauração de inquérito policial. Para o Ministério Público de Minas Gerais, é imprescindível que os fatos sejam apurados e os responsáveis pela divulgação de documentos inverídicos sejam identificados.

Informamos ainda que estamos enviando para o portal Comunique-se cópia do ofício enviado a Carta Capital em 3 de dezembro de 2012. Esperamos, assim, esclarecer qualquer mal entendido.

Ficamos à disposição para mais informações, reafirmando o respeito do Ministério Público de Minas Gerais pelo trabalho da imprensa e, em especial, pelo trabalho de tão renomada e respeitável revista como a Carta Capital.

Atenciosamente,

Superintendência de Comunicação Integrada
Ministério Público de Minas Gerais


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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Água de Beber - pequenas histórias de capoeira


Por Rui Zilnet*

Na próxima sexta-feira, 9, às 19h30, no Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas, estréia nova temporada do espetáculo Água de Beber, concebido e dirigido por Cláudio Baltar, que foi sucesso recente no Teatro Maria Clara Machado, na Gávea.

O espetáculo, que associa a música, o corpo em movimento e a reflexão sobre os princípios e características inerentes à capoeira, foi inspirado no livro “Santugri”, de Muniz Sodré, cujas curtas histórias de “mandinga e capoeiragem” remetem aos segredos, mitos e negaças de personagens como Besouro, Querido de Deus, Madame Satã, e muitos outros.

Cenas inspiradas em artigos de jornais, sobre escravos do século XIX, extraídos do livro “Retrato em Branco e Negro”, de Lilia Moritz Schwarcz, destacam o caráter documentarístico de Água de Beber. Na representação de fuga dos escravos, o instinto de sobrevivência aparece como o princípio primordial que deu origem à capoeira.

Através do episódio das Maltas, pesquisadas em autores como Paulo Coelho de Araújo e tese do Mestre Nestor da Capoeira, é retratada a marginalidade no Rio de Janeiro, entre 1850 e 1900, e a perseguição aos capoeiras.

Outros aspectos relativos à pratica da capoeira emergem da cena, tais como, o aprendizado e a relação mestre/discípulo, com a pergunta “O que é capoeira”, em contraposição a “O que não é capoeira?”. A partir de um desafio musical entre a cabeça e o corpo, busca-se saber quem é que comanda o movimento impulsivo. Já para investigar o movimento instintivo, recorre-se aos animais.

Sintetizando, “trazemos a água como símbolo da vida e princípio das transformações: “Capoeira é água de beber, câmara...””

Recomendo o espetáculo “Água de Beber” aos meus amigos e leitores. É ótimo!


Serviço:

Água de Beber
Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas
Rua Murtinho Nobre, 169 – Santa Teresa
Telefones (21) 2215-0621 / 2224-3922
De 9 de novembro a 2 de dezembro – Sexta a domingo, às 19h30
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Classificação: 10 anos

Ficha técnica:
Direção, concepção e roteiro: Cláudio Baltar
Codireção: Fabianna de Mello e Souza
Direção de produção: João de Mello
Produção executiva: Vânia de Mello
Assistente de produção: Sandra Alencar e Álvaro Bacim
Programação visual: Brígida Baltar
Projeção: Brígida Baltar e Rico Vilarouca
Iluminação: Aurélio de Simoni
Adaptação e montagem de luz: Rogério Emerson
Assistente de iluminação: Gabriel Marques
Figurino: Valéria Martins
Assistente de figurinos: Vânia de Mello
Gerência administrativa: Leonardo Luis dos Santos
Direção musical e trilha: Rafael Rocha, Fábio Leão Pequeno e Sérgio Cebolla
Preparação Jogo dos Bichos: Mestre Camisa
Preparação Jogo de Dentro: Marron Capoeira
Treinamento de máscaras: Fabiana de Mello e Souza
Vozes em off: Rodrigo dos Santos, Muniz Sodré, Bernardo Conde
Cordel: Parafina, Lobisomen e Leão Pequeno
Música das Maltas e música final: Bernardo Palmeira
Música “Água pra Viver”: Lobisomem e Cebolão
Estúdio e mixagem: Bernardo Palmeira
Confecção das máscaras: Clívia Cohen
Confecção de instrumentos: Sérgio Cebolla e Marcos China
Confecção de figurinos: Maria das Graças Silva
Adereços: Cida de Souza
Objetos de Cena: Marcos China
Elenco:
William de Paula
Sérgio Cebolla
Fábio Leão Pequeno
Davi Mico Preto
Raphael Logan
Charles Rosa.
Atores substitutos: Rodrigo dos Santos e Cláudio Baltar.


* Texto e fotos por Rui Zilnet, com informações sintetizadas de folder distribuído pela produção do espetáculo.

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Água de Beber


Por Rui Zilnet*

Na última sexta-feira (12), fui assistir a (re)estreia de Água de Beber, um espetáculo maravilhoso, concebido por Cláudio Baltar, associando a música, o corpo em movimento e a reflexão sobre os princípios e características da capoeira.

O espetáculo, que está em cartaz no Teatro Maria Clara Machado, na Gávea, é muito dinâmico, interativo e contagiante. Para Cláudio Baltar, “Água de Beber é uma reflexão atual sobre a capoeira, trazendo, não uma, mas muitas visões acerca de uma das manifestações mais ricas da nossa cultura popular”.

Inspirado em artigos de jornais, sobre escravos do final do século XIX, o autor construiu cenas de fuga dos escravos, destacando que o instinto de sobrevivência aparece como princípio primordial que dá origem à capoeira.

O elenco, dirigido por Cláudio Baltar, é integrado por William de Paula, Sérgio Cebolla, Fábio Leão Pequeno, Davi Mico Preto, Raphael Logan e Charles Rosa. Atores substitutos: Rodrigo dos Santos e Cláudio Baltar.

Não deixe de assistir a este maravilhoso espetáculo, que é Água de Beber!


Serviço:

Água de Beber
Teatro Municipal Maria Clara Machado
Rua Padre Leonel Franca, 240 – Gávea – Rio de Janeiro – Tel. (21) 2274-7722
De 12 de outubro a 4 de novembro de 2012
Sexta e sábado, às 21 horas; Domingo, às 20 horas.

 Em seqüência:

Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas
Rua Murtinho Nobre, 169 – Santa Teresa – Rio de Janeiro
Telefones (21) 2215-0621 / 2224-3922
De 9 de novembro a 2 de dezembro de 2012
Sexta a domingo, às 19h30

Ficha técnica:

Direção, concepção e roteiro: Cláudio Baltar
Codireção: Fabianna de Mello e Souza
Direção de produção: João de Mello
Produção executiva: Vânia de Mello
Assistente de produção: Sandra Alencar e Álvaro Bacim
Programação visual: Brígida Baltar
Projeção: Brígida Baltar e Rico Vilarouca
Iluminação: Aurélio de Simoni
Adaptação e montagem de luz: Rogério Emerson
Assistente de iluminação: Gabriel Marques
Figurino: Valéria Martins
Assistente de figurinos: Vânia de Mello
Gerência administrativa: Leonardo Luis dos Santos
Direção musical e trilha: Rafael Rocha, Fábio Leão Pequeno e Sérgio Cebolla
Preparação Jogo dos Bichos: Mestre Camisa
Preparação Jogo de Dentro: Marron Capoeira
Treinamento de máscaras: Fabiana de Mello e Souza
Vozes em off: Rodrigo dos Santos, Muniz Sodré, Bernardo Conde
Cordel: Parafina, Lobisomen e Leão Pequeno
Música das Maltas e música final: Bernardo Palmeira
Música “Água pra Viver”: Lobisomem e Cebolão
Estúdio e mixagem: Bernardo Palmeira
Confecção das máscaras: Clívia Cohen
Confecção de instrumentos: Sérgio Cebolla e Marcos China
Confecção de figurinos: Maria das Graças Silva
Adereços: Cida de Souza
Objetos de Cena: Marcos China


* Texto e fotos: Rui Zilnet

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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Belo Monte paralisada


Por Rui Zilnet

A Norte Energia comunicou no início da tarde desta quinta-feira (23), que por determinação judicial, estão suspensas as obras civis da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e demais atividades a ela diretamente vinculadas.

Como toda população brasileira está cansada de saber, o projeto da usina de Belo Monte foi estudado e aperfeiçoado por mais de 35 anos, tendo sido investidos até agora R$ 5 bilhões de um total de cerca de R$ 26 milhões previstos.

Pelo que tenho acompanhado da celeuma que se prolonga por todos estes anos - e pela pressão dos ambientalistas sobre ela - a Norte Energia vinha demonstrando estar cumprindo à risca a legislação ambiental, especialmente no que diz respeito à defesa dos direitos dos povos indígenas da região do Xingu, garantindo que nenhuma terra indígena seria diretamente afetada pela construção da usina de Belo Monte.

Ao que me parece, o grande prejudicado com a paralisação definitiva desta obra, será o Brasil. As conseqüências para a matriz energética brasileira serão negativas e imprevisíveis. Para suprir a demanda do consumo haverá necessidade de acionamento de termoelétricas a óleo, extremamente poluidoras e de custo mais elevado do que Belo Monte.

Se as obras já iniciadas forem paralisadas definitivamente, proporcionarão sérios prejuízos econômicos e ambientais. Mais de 20 mil trabalhadores ficarão imediatamente desempregados, incluindo os terceirizados, os lotados nas obras do entorno, na construção de escolas, postos de saúde, estradas, além dos que atuam nos programas socioambientais.

Com a suspensão das obras, outro efeito negativo é a interrupção dos investimentos de R$ 3 bilhões, previstos em 117 programas do Projeto Básico Ambiental (PBA), que serão cancelados. Obras importantes, como o saneamento básico da área urbana de Altamira e de Vitória do Xingu e o reassentamento de mais de 5 mil famílias que vivem em palafitas às margens do rio Xingu.

O financiamento do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRSX), para atendimento das populações de 11 municípios, com recursos de R$ 500 milhões da Norte Energia - e outros R$ 2,5 bilhões do governo federal - também serão suspensos, incluindo as iniciativas para as comunidades indígenas e ribeirinhos.

Com a paralisação do repasse aproximado de R$ 45 milhões/mês, relacionados à obra de Belo Monte, as administrações públicas municipais, estaduais e federais sentirão as conseqüências, que refletirão imediatamente sobre a população local.

A economia local será severamente impactada, acarretando perdas irreversíveis de investimentos em áreas de imobiliárias, hotelaria, transportes e comércio em geral.

O que será do povo pobre trabalhador, que foi atraído pelo trabalho em abundância para uma região que sempre esteve à margem dos interesses Estado, além daqueles que já viviam marginalizados nas palafitas do Xingu?

E agora, quem resolverá a situação daquele pobre povo? Os ambientalistas ou os gringos?

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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Brasil, um dos paises onde mais se persegue e mata jornalistas



“‘Jornalistas estão mais do que nunca na mira dos inimigos da liberdade de expressão’, diz diretor do INSI”

Por Jacqueline Patrocínio, em Comunique-se

De acordo com a pesquisa realizada pelo International News Safety Institute (INSI), pelo menos 70 jornalistas e outros profissionais de mídia morreram durante cobertura no primeiro semestre deste ano. Neste período, os piores países para jornalistas, segundo a pesquisa, foram Nigéria, Brasil, Somália, Indonésia e México.

Diretor do INSI, Rodney Pinder, afirma que as armas e bombas continuam como método preferido de censura em muitos países. “Jornalistas estão mais do que nunca na mira dos inimigos da liberdade de expressão. Toda e qualquer morte sufoca o fluxo de informações, sem o qual nenhuma sociedade livre pode funcionar”, declara.

Nos últimos dez anos, a taxa de impunidade dos assassinos se manteve constante no mundo em aproximadamente 90% das vezes. Sobre o Brasil, Pinder mencionou a cobrança da Asssociação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) na apuração do caso do jornalista Décio de Sá, assassinado em abril.

Esses crimes silenciam os repórteres e “avisam” de que não se deve cobrir em certas áreas. Em diferentes países, os jornalistas deixam de registrar algumas questões. “Esses cantos obscuros da sociedade não estão sendo expostos como deveriam”, conclui.

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quarta-feira, 4 de julho de 2012

A mídia conservadora brasileira e o golpe no Paraguai


“A "Frente Paraguaia" mostra os dentes”


Por Saul Leblon, em Carta Maior

Bastou um golpe de Estado para catalisar a orfandade conservadora, que amargava indócil ostracismo no ambiente democrático e progressista que predomina no Brasil e na América do Sul. Veio do sofrido Paraguai - onde 2,5% da população detém 80% das terras - a senha para replicar cepas e esporões remanescentes de ditaduras e negócios contrariados ao longo desse processo.

O 'golpe democrático' contra Fernando Lugo aconteceu numa sexta-feira (22-06); rito expresso, cumprido em 33 horas. As bactérias conservadoras se alvoroçaram; mas ainda aguardariam o fim de semana para medir a espaço de adesão. Avaliado o risco, começaram a proliferar-se. A frente paraguaia pró-golpe manifestar-se-ia, primeiro, no Congresso.

Expoentes tucanos e emissários do agronegócio brasileiro, que anexou extensões escandalosas de terras do país vizinho em prejuízo dos camponeses locais, desfraldariam o lobby. Queriam o 'reconhecimento do novo governo amigável' por parte da Presidenta Dilma. Rechaçados, seria a vez da cavalaria midiática colocar-se a campo. A Folha, em editorial no dia 26, sugestivamente intitulado 'Paraguai soberano' esbravejava antecipadamente contra a reunião do Mercosul que ocorreria em Mendoza, três dias depois, e recomendava, ou melhor, ordenava: 'o melhor que o Itamaraty tem a fazer é calar-se e respeitar a soberania do vizinho'.

Como os presidentes do Brasil, Argentina e Uruguai não leram o editorial e, ademais de suspenderem o Paraguai golpista, incorporaram a Venezuela progressista ao bloco, as cepas e esporões passaram a reproduzir-se com furor lacerdista. Colunistas prestativos lixaram o verniz liberal e espanaram o pó de uma biografia de bons serviços prestados à ditadura brasileira, como editores de recados semanais nas revistas de sempre.

Aqui e ali espumaram sua essência intacta contra o que classificariam como sendo 'uma truculenta intervenção nos assuntos internos do Paraguai'.

Nesta 3ª feira, coube ao 'Estadão' editorializar o desejo implícito na esponjosa reação em cadeia de valores liberais que costumeiramente unem o cofre agrário ao bolso da subserviência geopolítica. O jornalão que patrocinou o golpe de 64, e esperneou quando foi excluído do butim, deixou de lado a liturgia do espaço editorial e aconselhou aos golpistas paraguaios 'mandar às favas essa união aduaneira fracassada e buscar negociações relevantes para seu país'. Leia-se, buscar o regaço largo dos EUA, implodindo uma união regional que nem a crise conseguiu arranhar --e que corre o risco de se fortalecer se o colapso financeiro dos ricos for exorcizado pela retomada do ativismo estatal na região.

A frente paraguaia, portanto, pôs-se a campo, tem objetivos claros e agora explícitos: apoiar o golpe; através dele, criar um contencioso capaz implodir a espiral soberana e progressista em curso na América Latina. Leia oporrtuna a entrevista do assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia sobre o assunto, em Carta Maior.

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terça-feira, 26 de junho de 2012

Polícia some e população de rua e craqueiros reaparecem no centro do Rio


Rui Zilnet*

Após 12 dias afastada dos seus lugares tradicionais de concentração,
população de rua volta ao seu habitat natural na selva de pedras
Entre os dias 13 e 24 deste mês, durante a realização da Rio+20 o que mais chamou a atenção no Rio de Janeiro foi o aparato de segurança mostrado ao mundo e a ausência dos miseráveis e craqueiros nos logradouros públicos de grande circulação e lugares de influência direta do evento.

Durante este período tive uma curiosidade muito grande em saber qual o destino da população de rua com a qual estamos acostumados a conviver diariamente. Sentia um desconforto por não conseguir ver ou ter notícias de pessoas que não temos intimidade, mas que cruzamos todos os dias em determinados lugares da cidade e que passam a fazer parte de nossas vidas.

O intenso contingente de forças de segurança pública mostrados aos
cariocas e visitantes durante a realização da Rio+20 não amanheceu
nas ruas da Cidade Maravilhosa nesta segunda-feira
Nesta segunda-feira, como já era esperado, a cidade amanheceu sem o policiamento apresentado pelo Estado para a garantia da segurança da Rio+20. Aos poucos, durante o longo do dia os moradores das ruas foram chegando, o que para mim foi um alívio. Não sei se todos retornaram aos seus locais de permanência diária, mas uma grande maioria está na rua. Prefiro vê-los todos os dias, em locais onde são assistidos pela solidariedade de pessoas sensíveis aos seus problemas do que sumidos repentinamente, sem saber seus destinos.

Então, para satisfazer a minha curiosidade, no fim da tarde fui a um dos pontos mais tradicionais de reunião dessas pessoas, no Largo da Lapa. Ao chegar lá, respirei mais aliviado. Pois, encontrei na fila que todas as tardes se forma naquele local, onde recebem uma senha, distribuída por um grupo de freiras, para a sopa vespertina que é servida em uma casa localizada na Travessa do Mosqueira.

Ao aproximar-me de alguns integrantes do grupo, buscando saber para onde foram levados e quem os levou, a resposta veio prontamente, com muitas reclamações. Foram levados para pelos agentes municipais da Ordem Pública e da Assistência Social municipal ao Abrigo Municipal de Antares, localizado em Santa Cruz, na Zona Oeste da capital fluminense, onde ficaram detidos até o início desta segunda-feira (25).

Foi uma limpeza sumária das ruas centrais e de todos os lugares de influência do evento internacional, para transmitir aos visitantes e participantes da Rio+20 a falsa sensação de que o Rio de Janeiro é uma cidade sem miséria, sem violência. O abrigo de Antares, localizado onde funcionava uma unidade de formação profissional do Sesi/Senai, não passa de um depósito de seres humanos que vivem sob o manto do descaso e omissão do poder público com a anuência de uma sociedade injusta e mesquinha que só olha para o seu próprio umbigo.
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Até quando iremos conviver com esta situação? Onde estão os responsáveis em promover o bem estar social prometido na Constituição Federal do Brasil?


Texto e fotos: Rui Zilnet

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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Rememorando Bauru

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Por Rui Zilnet

No início deste mês de junho tive a oportunidade e felicidade de poder retornar a Bauru, cidade localizada na Região Centro-Oeste do Estado de São Paulo, conhecida não somente pelo famoso sanduíche que leva o seu nome, mas também por sediar um dos principais troncos rodoferroviários do país por muitas décadas, e que me acolheu entre os anos de 1990 e 1993.

Pórtico da gare abandonada da Estação Noroeste do Brasil/Bauru/SP
Nesta viagem, permaneci por oito dias revendo uma Bauru bonita, bem urbanizada, mas com uma grande chaga, provocada pelo estado de abandono da ferrovia, que, durante décadas, representou o progresso e desenvolvimento da região. Até a década de 1990, trens de passageiros e cargas com destino a diversas localidades brasileiras produziam intenso movimento na Estação Noroeste do Brasil.

Cheguei à cidade, pela primeira vez, no início da década de 1970, por um trem do ramal de Botucatu, que, se não me falha a memória, era da Ituana ou Sorocabana. Mais tarde, viajei muitas vezes nos confortáveis trens da Companhia Paulista, que partiam à noite da Estação da Luz [depois da Barra Funda], em São Paulo, e chegavam a Bauru no início da manhã.

Composição com locomotivas de tração elétrica abandonada na gare
De Bauru também parti várias vezes rumo a Campo Grande e Corumbá, no trem do Pantanal. Viagens inesquecíveis. Não esqueço do carinho com que era tratado pelo pessoal da RFFSA, na Estação Noroeste de Bauru, durante os anos que permaneci na cidade.

O último trem de passageiros, da antiga linha da Cia. Paulista, chegou a estação de Bauru no dia 15 de março de 2001. No dia 13 de janeiro de 1993 acompanhei e registrei a última viagem do trem Bauru/Campo Grande. O que resta hoje no local é o total abandono, representando o descaso com a história e os bens públicos em nosso país.

Trem Maria-Fumaça recuperado por funcionários da Prefeitura de Bauru
O que sobra da ferrovia em Bauru, além do estado de abandono e para aliviar o sofrimento dos amantes da ferrovia, é um singelo museu mantido pela Secretaria de Cultura do município, em prédio contíguo à antiga estação. Um trem Maria-Fumaça, prefixo 278, recuperado por funcionários da Prefeitura Municipal, circula no terceiro domingo do mês, em pequeno percurso, tracionando dois vagões de passageiros, um de primeira e outro de segunda classe, além de um vagão de administração.



Observação:

Durante minha visita à gare da Estação Noroeste do Brasil, no último dia 13, um dos fatos que me deixou indignado e perplexo foi provocado por uma guia de turismo, da Secretaria de Cultura do Município, que acompanhava um grupo de estudantes em visita ao trem Maria-Fumaça e interrompeu seu trabalho, extrapolando de suas funções, para me interpelar de forma autoritária enquanto eu, devidamente identificado e autorizado, desempenhava minha função jornalística. Não entendi o interesse da funcionária em tentar ocultar o que está tão visível a todos.

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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Hoje, um bom dia para reflexão

Rui Zilnet

Em nosso país, todo dia comemora-se alguma data alusiva a algum fato. Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia da Criança, Dia da Árvore, Dia dos Namorados, Santo Antonio, São José, Dia do Cão, Dia do Gato, Dia de São Isto, Dia de São Aquilo. E o Dia do Combate à Violência contra o Idoso, alguém lembra ou sabe que existe?

Pois é, em 2006 a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa instituíram o dia 15 de junho como data mundial de combate à violência contra os idosos. Poucos sabem ou fingem não saber da existência dos direitos que protegem as pessoas com mais de 60 anos.

No Brasil, somente em 2003 foi atendida uma exigência formulada na Constituição Federal de 1988. A Lei Nº 10741 instituiu o Estatuto do Idoso, que diz que a pessoa com mais de 60 anos é protegida pelo estatuto (art. 1), garantindo-lhe os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, assegurando-lhes todas as oportunidades e facilidades para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento, moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade (art. 2). É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária (art. 3).

A violência contra o idoso e a violação aos seus direitos é clara e alarmante em nosso país. A instituição desta data objetiva criar uma consciência mundial, social e política da existência da violência contra a pessoa idosa e disseminar a idéia de não aceitá-la como normal. A violência contra a pessoa idosa deve ser entendida como uma grave violação aos Direitos Humanos.

A sociedade brasileira deveria ser menos omissa, menos egoísta e olhar com mais carinho e atenção para os Idosos. Seja em casa, no ônibus; trem, metrô, mercado, padaria, calçada; ao atravessar a rua; ao subir uma escada, etc. Vemos tantas passeatas e movimentos em favor de tantas causas, mas nenhuma de combate à violência contra os idosos.

Será que estes que desprezam os direitos dos idosos hoje não alcançarão os 60 anos?

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domingo, 20 de maio de 2012

Mino Carta: "Lâmpada ou lanterna?"

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Por Mino Carta, em Carta Capital


Caçador de marajás. Fórmula exitosa explorada por Veja e pela Globo
para fazer do senhor acima o anti-Lula. Foto: Protásio Nene/AE
Roberto Civita é dotado exclusivamente de certezas. Talvez se deva ao QI. Há 52 anos, em um dia de abril ou maio, vinha ao lado dele pela calçada de uma rua central de São Paulo a caminho da Editora Abril, onde eu aportara pouco antes, e eis que pergunta qual seria meu quociente de inteligência. Declaro ignorar, de fato nunca me submeti a exames psicotécnicos. Sorriso cesáreo, pronuncia um número e esclarece: “É o meu”. “Satisfatório, imagino”, comento. Mais que isso, premia um ser humano a cada 25 milhões de semelhantes. O Brasil tinha então 70 milhões de habitantes, donde deduzo: “Só pode haver mais dois iguais a você”. “Pode – admite, plácido –, mas a estatística inclui todos os terráqueos, de sorte que eu poderia ser o único.”

Roberto Civita tende mesmo a se considerar único, um Moisés chamado a conduzir a Abril à terra prometida. Pronto a pôr em prática, assim como o herói bíblico dividia as águas, as artes da mídia nativa, inventar, omitir, mentir. Tropeço entre atônito e perplexo na última edição da revista Veja, a qual impavidamente afirma, entre outras peremptórias certezas, a autoria da derrubada de Fernando Collor da Presidência da República em 1992. Comete assim, entre a invenção e a mentira, o enésimo lance clássico do jornalismo nativo ao contar um episódio tão significativo da história do País.

Um ex-diretor da Veja, Mario Sergio Conti, escreveu um livro, Notícias do Planalto, para sustentar que Collor foi eleito pelos jornalistas. Não sei se Conti é mais um dos profissionais que no Brasil chamam o patrão de colega. Claro está, de todo modo, que a mídia naquela circunstância executou a vontade dos seus barões, a contarem com a obediência pronta e imediata dos sabujos. E à eleição de Collor Veja ofereceu uma contribuição determinante não menos do que a das Organizações Globo. Agora gabam-se pelo dramático desfecho do governo interrompido e omitem que lhes coube a criação do monstro.

Os leitores recordam certamente a expressão “caçador de marajás”. Pois nasceu no berço esplêndido da TV Globo e foi desfraldada à exaustão pela capitânia da esquadra abriliana. Ocorre que o naufrágio collorido não foi obra desta ou daquela, e sim do motorista Eriberto, que prestava serviço entre o gabinete presidencial do Planalto, o escritório de PC Farias e a Casa da Dinda. Localizado pela sucursal de IstoÉ em Brasília ao cabo de uma exaustiva investigação, trouxe as provas que a CPI não havia produzido. É a verdade factual, oposta à versão da última edição de Veja.

Lembro aquele sábado de 1992 em que IstoÉ foi às bancas com as revelações decisivas, de sorte a obrigar os jornalões, a começar pelo O Globo, a reproduzir as informações veiculadas pela semanal que então eu dirigia. A entrevista de Pedro Collor a Veja, do abril anterior, não bastaria para condenar o irmão presidente, tanto que a CPI se encaminhava para o fracasso. Pedro, de resto, nada de novo dissera na entrevista, a não ser a referência a certos, surpreendentes supositórios de cocaína. No mais, repetira, um ano e meio depois, uma reportagem de capa de IstoÉ.

Manual da arte midiática nativa, incluídas
mediocridadem parvoíce e ignorância
No fim de setembro de 1990, Bob Fernandes passou a acompanhar os movimentos de PC Farias por mais de um mês para desnudar, ao fim da tocaia, que o levou inclusive a hospedar-se no mesmo apart-hotel da eminência parda do governo, a culpa em cartório do presidente e seu preposto à corrupção. No dia do fechamento deIstoÉ, tarde de uma sexta-feira, fui visitado por um ex-colega, intermediário da tentativa de impedir a publicação. Veio ele melífluo, portador de um pedido partido de altos escalões (depois naquelas alturas identificaria a ministra Zélia, mais talhada para dançar bolero do que carregar a pasta da Economia), e eu prontamente apontei-lhe o caminho da rua. Nem por isso deixei de declinar a minha condição de empregado e admitir que meu patrão quem sabe pudesse ser seduzido com ouro, incenso e mirra. Não sei por que evoquei os magos na noite de Belém.

Logo, na prática, a sedução foi ensaiada em dólares, a bem da contemporaneidade, e Domingo Alzugaray, dono da Editora Três, recusou dignamente de 1 milhão a 5 milhões, até hoje ignoro o nível atingido pela derradeira oferta. Constatei depois, na costumeira troca de opiniões com meus botões, que os dólares teriam sido gastos inutilmente. A reportagem de capa caiu como pedra no pântano, não houve quem a repercutisse. Foi um daqueles momentos em que se recomenda o recurso à omissão.

Era cedo demais, teve de passar um ano e meio para que a mídia da casa-grande se convencesse de que o pedágio cobrado por Collor e PC era exorbitante. Apelou-se para o Pedro rebelde. Este episódio, desdobrado em pouco mais de dois anos de governo do “caçador de marajás”, é simbólico dos comportamentos dos nossos donos do poder, a partir da própria opção por Collor como anti-Lula. A tigrada em risco se dispõe a agarrar em fio desencapado.

O emblema é, porém, mais abrangente. Na sua patética edição desta semana Veja consegue demonstrar apenas que a lâmpada da capa é a enésima mentira. A série de textos pendurada no varal vejano estica-se na treva mais funda. Não se trata simplesmente de um manual de como o jornalismo pátrio atua, a inventar, omitir e mentir, mas também de mediocridade, parvoíce e ignorância. Em matéria, nos deparamos com uma obra-prima recheada por capítulos extraordinários na sua capacidade de suscitar tanto a hilaridade quanto o espanto.

Sem pretender hierarquizar na avaliação do ridículo e do grotesco, vale a afirmação de Vejaque se apresenta como vítima do ataque conjunto da imprensa ligada aos setores radicais do PT e pela internet, entregue a robôs de militância petista. Programados pelos cientistas (aloprados?) do partido da presidenta e do ex-presidente? O Brasil, segundo a semanal da Abril, confunde-se com Rússia, Cuba e Venezuela, onde a liberdade de imprensa é violentamente cerceada, e com a China, de internet robotizada. Talvez a rapaziada de Vejatenha de racionar suas idas ao cinema para assistir à ficção científica estilo Matrix. Claríssima é, contudo, uma área que a Skuromatic não logra alcançar: a proposta de censura à internet, estampada com todas as letras por quem se apresenta como paladino da liberdade de expressão.

Passagem empolgante aquela em que Veja define Antonio Gramsci, notável pensador do século passado morto na cadeia fascista às vésperas da Segunda Guerra Mundial depois de 11 anos de cativeiro, autor de uma obra monumental intitulada Cadernos do Cárcere, que ele considerava como ensaio daquela a ser escrita em liberdade. A revista da Abril decreta: Gramsci é um terrorista vermelho, não menos que Lenin e Stalin. Pois é do conhecimento até do mundo mineral que Gramsci plantou as raízes da transformação do partidão italiano, enfim capaz de abjurar os dogmas marxista-leninistas e de se afastar do Kremlin para desaguar no eurocomunismo de Enrico Berlinguer, de pura, autêntica marca social-democrática. Permito-me propor à redação de Veja os nomes de um punhado de terroristas: Sócrates, Jesus Cristo, Montano, Lutero, Maquiavel, Pascal, Voltaire, Caravaggio, Daniel Defoe, Jonathan Swift, Garibaldi, Bolívar, Dostoievski, Espinoza. Há muitos outros, mas são estes que me ocorrem de chofre.

Não faltam, para fechar o círculo, as omissões. Por que não consta entre as façanhas vejanas a fantástica revelação das contas clandestinas no exterior de figurões variados do governo Lula, encabeçada por aquela do próprio presidente? E por que não se evoca a reportagem de sete anos atrás, sobre os dólares destinados a abastecer as burras petistas, chegados de Cuba em garrafas, com as mensagens dos náufragos? De rum, imaginariam vocês. Nada disso, de uísque. Nunca fica tão evidente, de limpidez ofuscante, que Veja é a revista do inventor da lâmpada Skuromatic.

Quando me demiti da direção da redação de Veja e de integrante do conselho editorial da Editora Abril, disse ao chairman of the board, Victor Civita: “Por nada deste mundo hoje trabalharia na Abril, entre outros motivos porque seu filho Roberto é um cretino”. O patrão retrucou, sem irritação evidente: “Não diga isso, diga ingênuo”. Dois dias antes, fevereiro de 1976, o filho me confessara, candidamente, que o então ministro da Justiça (Justiça?) Armando Falcão pedia a minha cabeça como condição do fim da censura e de um empréstimo de 50 milhões de dólares pela Caixa Econômica Federal.

É uma longa história, que já contei mais de uma vez. E eu me demiti, ao contrário do que escreveu Mario Sergio Conti, sabujo emérito, pronto a adotar a versão patronal, porque não queria um único, escasso centavo do inventor da lâmpada Skuromatic. Ou não seria lanterna, com a vantagem de ser carregada onde o usuário bem entenda?

P.S.: Não consigo entender por que Marco Antonio Barbosa, figura altamente confiável, não está entre os integrantes da Comissão da Verdade, alguns altamente inconfiáveis.

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